O termo “acne hormonal” se popularizou para descrever casos de acne em que há relação com oscilações hormonais — especialmente em mulheres adultas. Mas essa expressão não é tecnicamente precisa e pode levar à ideia equivocada de que os hormônios são a única ou principal causa da doença. A acne é multifatorial e, para compreendê-la em cada paciente, é preciso avaliar com critério fatores como predisposição genética, sensibilidade das glândulas sebáceas aos hormônios, hábitos de vida, alimentação, uso de medicamentos, rotina de cuidados com a pele e possíveis doenças associadas, como a síndrome dos ovários policísticos. Reduzir sua origem apenas a um “desequilíbrio hormonal” ignora esses elementos, que são fundamentais tanto para o diagnóstico quanto para a escolha de um tratamento eficaz e personalizado.
A acne é uma doença que envolve o folículo piloso e as glândulas sebáceas associadas. Essas glândulas possuem receptores para hormônios androgênicos — que passam a atuar mais intensamente a partir da puberdade. Em algumas mulheres adultas com acne, acredita-se que esses receptores sejam mais ativos ou mais sensíveis do que o normal, fazendo com que as glândulas sebáceas respondam de forma exagerada aos hormônios circulantes. Isso pode ocorrer mesmo com níveis hormonais dentro da faixa considerada normal, resultando em produção aumentada de sebo, obstrução dos poros e inflamação.
Além desse componente hormonal, a acne também carrega uma carga genética importante e pode ser agravada por outros fatores: dieta com alto índice glicêmico, hábitos de vida inadequados, estresse, uso de cosméticos oclusivos e até de alguns medicamentos, como lítio, corticoides e vitamina B12. Todos esses elementos podem coexistir e influenciar o quadro, tornando-o mais complexo do que a expressão “acne hormonal” dá a entender.
E como deve ser a abordagem da acne da mulher adulta? Não existe uma receita única. É preciso considerar o tipo de pele de cada paciente, se há tendência à sensibilização, contraindicações ao uso de medicamentos, intolerâncias alimentares e doenças sistêmicas associadas. Na minha experiência, o melhor tratamento é aquele que une um estilo de vida saudável a tratamentos tópicos não irritantes e, em casos mais desafiadores, avalia a necessidade de introduzir medicações como antibióticos ou anti-inflamatórios de pele, medicamentos que reduzam a ação do receptor androgênico da glândula sebácea ou fármacos que atuem em todos os pilares da formação da acne.
Meu posicionamento é que precisamos encarar a acne — inclusive a da mulher adulta — como uma condição multifatorial. O rótulo “hormonal” pode limitar o olhar e atrasar o diagnóstico de outros gatilhos relevantes. Uma abordagem ampla, que investigue todos os fatores envolvidos, é a chave para um tratamento mais eficaz, sustentável e capaz de devolver ao paciente não só uma pele saudável, mas também segurança e controle sobre a própria saúde.
Cravos, espinhas, oleosidade. A pele acneica é um desafio para boa parte da população. Algumas estatísticas apontam que entre 60% e 80% das pessoas no mundo sofrerão com acne em algum momento da vida. É natural que existam soluções comuns para um problema tão frequente — quem nunca foi à farmácia na esperança de encontrar um sabonete “para desengordurar” a pele? Ou recorreu a um secativo ou ácido “porque mal não vai fazer”? O problema é que a pele acneica também pode ser sensível. Essa é a realidade de muitas mulheres adultas que, além de lidar com inflamação e oleosidade, enfrentam ardor, vermelhidão, descamação e reações a produtos ou tratamentos que, em outras peles, seriam bem tolerados. O grande segredo é compreender que, para cuidar da pele da mulher que sofre com acne, é preciso conhecer e respeitar a barreira cutânea — estrutura fundamental para manter a pele protegida, hidratada e capaz de tolerar os tratamentos necessários.
A barreira cutânea é a camada mais externa da pele, formada por células, lipídios e proteínas que funcionam como um escudo contra agressores externos e evitam a perda excessiva de água. Sua função é manter a hidratação e proteger o meio interno contra agentes irritantes. Quando é danificada — por inflamação constante, uso de cosméticos inadequados ou excesso de tratamentos agressivos —, a pele perde água rapidamente, fica mais vulnerável a microrganismos e inflamação e reage com mais ardor, vermelhidão e descamação. É nesse momento que muitas pacientes percebem que aquele ácido ou secativo “de sempre” começa a irritar e piorar o desconforto – um sinal claro de que a barreira cutânea está comprometida e de que será necessário um trabalho cuidadoso para restaurá-la antes de retomar, ou mesmo iniciar, o tratamento para acne. Ignorar essa etapa só prolonga a inflamação e aumenta o risco de abandono do tratamento por intolerância.
Tratar a acne com foco na recuperação e no respeito à barreira cutânea é totalmente possível. Quando a pele é extremamente sensível, é desejável priorizar tratamentos via oral e reduzir a quantidade de produtos aplicados diretamente na pele. Ainda assim, o cuidado tópico – limpeza, hidratação e fotoproteção – tem importância inquestionável e deve ser ajustado às limitações desse tipo de pele. Reduzir uso de sabonetes e higienizantes, escolher soluções de limpeza suave e evitar fricção excessiva. Após a higienização, aplicar ativos calmantes em sérum (niacinamida, Physavie® ou alfa-bisabolo)l, pode ser uma estratégia para reduzir ardência e vermelhidão. O terceiro passo, a hidratação, equivale a reconstruir a barreira cutânea e deve ser feita com hidratantes potentes ou óleos vegetais adequados. Por fim, a escolha do protetor solar deve recair sobre fórmulas suaves, com boa adaptação sensorial, o que garante proteção diária sem desconforto.
Respeitar a barreira cutânea não é um detalhe do tratamento: é a base para que todo o restante funcione. Quando essa estrutura está íntegra, a pele tolera melhor os ativos, responde de forma mais consistente e mantém os resultados a longo prazo. Já quando está fragilizada, qualquer tratamento — por mais moderno ou potente — se torna ineficaz e desconfortável. Por isso, na acne da mulher adulta com pele sensível, cuidar da barreira cutânea não é apenas parte do protocolo, mas o próprio caminho para que o tratamento seja possível, prazeroso e sustentável. Uma pele saudável é, antes de tudo, uma pele protegida. E é a partir dela que se constrói a melhora definitiva da acne.