Ao pensar em rosácea, a imagem que vem à mente é a da vermelhidão nas bochechas, vasos aparentes, ardência, pápulas e pústulas. No entanto, existe uma forma silenciosa — e frequentemente negligenciada — dessa doença: a rosácea ocular, que acomete entre 58% e 72% dos pacientes com rosácea, segundo revisão publicada nos Arquivos Brasileiros de Oftalmologia. Embora menos comentada, ela é tão impactante quanto as manifestações cutâneas: afeta diretamente o conforto visual, a qualidade de vida e, em casos graves, compromete a integridade da superfície ocular. 

O grande desafio é que essa manifestação nem sempre acompanha as lesões de pele. A rosácea ocular pode surgir em pacientes com quadros leves, graves — ou até mesmo sem qualquer sinal cutâneo visível. Em até 20% dos casos, os sintomas oculares aparecem antes de qualquer alteração dermatológica, o que contribui para sua subnotificação e dificulta o diagnóstico, tanto para dermatologistas quanto para oftalmologistas. 

Os sintomas são sutis no início: olhos vermelhos, sensação de areia, ardência, fotossensibilidade e uma impressão constante de que há algo dentro do olho. Por serem inespecíficos, esses sinais são facilmente atribuídos a causas pouco valorizadas — como cansaço, clima seco ou uso prolongado de telas — e acabam não sendo investigados com atenção. Com o tempo, no entanto, surgem achados mais característicos: vasos dilatados visíveis nas bordas das pálpebras, blefarite (inflamação ao redor dos cílios) e disfunção das glândulas de Meibômio — estruturas responsáveis por produzir a camada oleosa da lágrima, essencial para manter os olhos lubrificados. Quando essas glândulas não funcionam adequadamente, o filme lacrimal se rompe, o ressecamento se instala e a inflamação se perpetua. 

Em casos mais avançados, a inflamação se intensifica: a conjuntiva (membrana que recobre a parte branca dos olhos) inflama, surgem quadros de ceratite (inflamação da córnea) e, em situações mais graves, uveíte anterior — uma inflamação intraocular que compromete seriamente a visão. Ainda assim, o diagnóstico é clínico, baseado na observação cuidadosa dos sinais oculares — que muitas vezes passam despercebidos na consulta dermatológica, ou são interpretados como outras condições por oftalmologistas. Estima-se que até 90% dos pacientes com rosácea ocular apresentem manifestações cutâneas sutis ou ausentes, o que reforça a importância de um olhar clínico multidisciplinar. 

A verdade é que, de cada 10 pacientes com rosácea, 6 a 7 apresentam algum grau de comprometimento ocular — como olhos secos, coceira, ardência e sensação persistente de corpo estranho. Cabe ao dermatologista investigar ativamente esses sintomas durante a anamnese. Diagnosticar a rosácea ocular é mais do que aliviar o desconforto: é proteger a visão e evitar danos estruturais irreversíveis. A pele e os olhos falam a mesma linguagem inflamatória — e quem escuta apenas um, corre o risco de não enxergar o todo.